12/11/08

Fotografia subjetiva

A expressão fotografia subjetiva pode ser utilizada em vários sentidos e pode designar opiniões ou posturas, sentimentos e qualidades dos sentidos como cores e percepções. Também diz respeito ao conhecimento do indivíduo sobre si mesmo. Representa a interioridade do fotógrafo. O fotógrafo que reflete e se volta na sua atividade intelectual para sua subjetividade como bússola de autocompreensão. Seu instrumento é a auto-reflexão ou uma vivência que se torna objeto de ou para a sua consciência.

A subjetividade implica na articulação de relações com o interior e exterior do fotógrafo reorganizando constantes da vida, dos valores, das éticas e da estética. Nessa percepção interna ou subjetividade individual, o ganho é que, a fotografia passa a ser objeto comum de terceiros que podem, inclusive, produzir sobre ela. A fotografia é, então, a expressão da subjetividade e se delineia como comunicação humana, clarificando pensamentos, atingindo verdades e convertendo-se em contribuição reflexiva para todos.

Otto Steinert
Call, 1950

A subjetividade não implica apenas que o fotógrafo ao fazer uma foto, comunique suas emoções e sentimentos para um observador através dela, mas porque na obra, sobrevive uma história que tem uma essência coletiva. A afinidade entre a obra e o fotógrafo permanece porque “aquela história” ainda sobrevive no indivíduo.A subjetividade é onde o indivíduo percebe a marca, a impressão de sua essência coletiva. O que de fato, interessa na dita fotografia subjetiva não depende de como o seu autor a projetou e o que ele dela pensou antes de executá-la, ou se o que nela se lê tem ou não alguma semelhança ou diferença com suas intenções. Com efeito, o que interessa é o que expressa sua natureza como sendo de uma relação social, daquilo que é primordialmente coletivo no sujeito individual que realiza a obra. Ao fazê-la, o fotógrafo não toma decisões que são absolutamente desconectadas de um movimento histórico em que se insere e nem a obra tem uma independência absoluta com a história da arte e da sociedade.
Nessa perspectiva é que podemos observar a conhecida fotografia subjetiva( subjektive fotografie) criada pelos fotógrafos alemães do pós-guerra, em oposição à representação objetiva da realidade, tratando da averiguação do significado e interpretação individual da imagem. O projeto contou com três exposições organizadas entre 1951 e 1958, por Otto Steinert (1915-1978), que apresentava fotografias de aspecto gráfico com contrastes preto e branco. Os meios de expressão utilizados foram as cópias contrastadas, as estruturas abstratas, as situações de efeito surrealista, as cópias em negativo e as solarizações. Esta proposta teve origem na fotografia da Bauhaus nos anos 20 e também nas concepções do conhecido grupo Fotoform, fundado em 1949, por fotógrafos que pretendiam enfatizar a criação individual com os recursos da fotografia.

Otto Steinert abandonou a carreira de médico e passou a se dedicar a fotografia e, em 1949, lecionava fotografia na Escola de Arte de Sarrebruck. No catálogo de sua segunda exposição, escreveu: " Com maior razão nos sentimos obrigados (...) a estimular todas as iniciativas criadoras que contribuem ativamente a produzir uma imagem fotográfica elaborada e atual, que gerem uma verdadeira sensibilização frente a qualidade fotográfica da imagem". (La fotografia del siglo XX, Museum Ludwig Colonia, Taschen,Marianne Bieger-Thielemann, 2001, p.177). Dirigiu o departamento de fotografia da Escola de Desenho Folkwang, de Essen, de 1959 até sua morte. Paralelamente a sua atividade de fotógrafo e professor, reuniu uma coleção de fotografias de elevadíssima qualidade.

Otto Steinert
Máscara de uma bailarina, 1952A exposição “Fotografia subjetiva – contribuição alemã (1948-1963)” poderá ser vista, em Porto Alegre, até 23 de novembro, no Museu de Arte Contemporânea - Casa de Cultura Mario Quintana.

Um comentário:

meg disse...

É incrível a influência do Bauhaus. Muitos fotógrafos de origem alemã imigraram para o Brasil trazendo influência do grupo, aliás, acho que tudo que diz respeito ao uso de recursos de montagem, dupla exposição e outras coisas vem daí, e tem muita gente achando que está produzindo algo novo. Otto Steinert fez uma fotografia do mar e céu negro, pura ênfase nas formas, particularmente gosto muito.
Um belo post, parabéns.